O Supremo Tribunal Federal (STF) deu início ao julgamento dos cinco réus acusados de planejar e executar o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista, Anderson Gomes, crime ocorrido em 14 de março de 2018 no Rio de Janeiro. O caso, que completa quase oito anos, representa um marco na luta contra a impunidade em homicídios políticos no Brasil, mobilizando a sociedade civil e reacendendo debates sobre violência contra lideranças progressistas.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a condenação unânime dos acusados, com base em um robusto conjunto de provas técnicas e na delação premiada de Ronnie Lessa, o ex-policial militar que confessou ser o executor dos disparos. Lessa, já condenado a mais de 40 anos de prisão em 2019, detalhou em seu depoimento como os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão, ambos ex-deputados estaduais pelo Rio, teriam orquestrado o crime. Domingos, apontado como o principal mandante, e Chiquinho seriam motivados por interesses políticos ligados à atuação de Marielle na defesa dos direitos humanos, especialmente em favelas da zona oeste carioca, área de influência dos irmãos.
Além dos Brazão, respondem à Justiça Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, acusado de obstruir as investigações iniciais para garantir a impunidade dos executores; e os ex-policiais militares Élcio de Queiroz e Maxwell Simões Corrêa, este último ligado à logística do atentado. As provas incluem perícias balísticas, que conectam as armas usadas ao arsenal de Lessa, registros telefônicos que indicam contatos frequentes entre os réus e depoimentos corroborados pela Polícia Federal.
O julgamento, presidido pelo ministro Alexandre de Moraes, ocorre em meio a um clima de tensão. Manifestantes se concentram em frente ao STF em Brasília, exigindo justiça com faixas como "Marielle vive" e críticas à milícia carioca, supostamente infiltrada em esferas de poder. A defesa dos réus alega fragilidades na delação de Lessa e ausência de provas diretas contra os mandantes, mas a PGR rebate destacando a convergência de indícios que formam "um mosaico irrefutável de culpa".
Especialistas em direito penal veem o desfecho como decisivo para a credibilidade do Judiciário. "É um teste para o sistema de justiça brasileiro lidar com crimes de colarinho branco misturados a milícias", analisa o jurista Lenio Streck. O veredicto pode resultar em penas de até 30 anos para cada réu, além de inelegibilidades políticas. A sessão inicial durou cerca de quatro horas, com expectativa de prosseguimento nos próximos dias, transmitido ao vivo pelo canal do STF no YouTube.
Esse processo reforça a memória de Marielle, símbolo de resistência contra o racismo estrutural e a violência urbana, e pressiona por reformas na segurança pública fluminense.
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