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Quinta-feira, 16 de Abril de 2026
IBGE lança mapa-mundo com invertido

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IBGE lança mapa-mundo com invertido

Perspectiva desafia convenções históricas e eurocêntricas em ano de protagonismo brasileiro no cenário global

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou nesta semana uma edição especial de seu mapa-múndi oficial que promete virar de cabeça para baixo a forma como tradicionalmente visualizamos o planeta. A nova representação, que mantém o Brasil no centro, inova ao posicionar o Sul no topo da imagem, desafiando as convenções cartográficas estabelecidas ao longo da história e propondo uma nova perspectiva em sintonia com o crescente protagonismo do Brasil no cenário mundial.

O lançamento ocorre em um momento estratégico, no ano em que o Brasil assume posições de destaque em importantes fóruns globais, presidindo o Brics e o Mercosul e se preparando para sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém, na Amazônia. O novo mapa não apenas reflete essa centralidade, mas a reforça visualmente, destacando os países que compõem o Brics, o Mercosul, as nações de língua portuguesa e as áreas do bioma amazônico. Cidades brasileiras estratégicas para eventos internacionais, como o Rio de Janeiro (capital do Brics), Belém (capital da COP30) e Fortaleza (sede do Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global), também ganham evidência.

A iniciativa, longe de ser um equívoco técnico, é um ato proposital, conforme explica Maria do Carmo Dias Bueno, diretora de Geociências do IBGE. Segundo ela, a orientação dos pontos cardeais em um mapa é uma convenção, não uma regra imutável. A tradicional disposição com o Norte no topo, historicamente difundida, carrega vieses sutis e políticos. O viés sutil pode levar à associação de qualidades positivas e maior valor ao que está na porção superior do mapa, enquanto a parte inferior (o Sul) pode ser subalternizada. Já o viés político, especialmente em mapas elaborados majoritariamente por europeus no passado, reforçou uma suposta superioridade da Europa ao posicioná-la no alto. A nova abordagem do IBGE busca, assim, confrontar essa visão eurocêntrica, atendendo a um anseio histórico de países do Sul global, especialmente os latino-americanos.

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Especialistas endossam a relevância do novo mapa. Luis Henrique Leandro Ribeiro, da Associação dos Geógrafos Brasileiros, ressalta que mapas são representações que incorporam convenções, valores e visões de mundo. A escolha do IBGE, uma instituição de grande prestígio na cartografia brasileira, ao apresentar essa versão invertida, "desnaturaliza" e "descentra" perspectivas universalizantes, abrindo caminho para novas representações alinhadas aos interesses geopolíticos atuais do Brasil. Destacar eventos internacionais sediados no país valoriza sua posição altiva em um mundo em transformação.

Rafael Sânzio Araújo dos Anjos, da Universidade de Brasília, aponta que a pesquisa brasileira já explora essa perspectiva há 20 anos, e a iniciativa do IBGE confere oficialidade a essa nova representação, contribuindo para a autoestima nacional ao colocar o Brasil no centro e alterar o eixo Norte-Sul convencional. Ele recorda que os mapas europeus a partir do século XVI impuseram uma visão orientada para o Polo Norte, refletindo o contexto de expansão marítima e colonialismo. Mostrar uma imagem diferente é fundamental para desmistificar esse processo histórico.

Leandro Andrei Beser, da Uerj, reforça que mapas são meios de comunicação e que a adoção do mapa eurocêntrico como padrão no sistema de ensino consolidou uma visão específica do mundo. O novo mapa do IBGE, ao quebrar essa visão colonialista, visibiliza os países do Sul e os posiciona no centro, comunicando a liderança atual do Brasil em diversas frentes.

João Pedro Pereira Caetano de Lima e Carolina Russo Simon, da Associação de Geógrafas e Geógrafos Brasileiros, explicam que o novo mapa utiliza a projeção de Eckert III, mais adequada para mapeamentos temáticos e que busca um equilíbrio na representação dos continentes, minimizando as distorções presentes em projeções mais antigas como a de Mercator. A inversão da orientação, inspirada na obra "A América Invertida" de Joaquín Torres García, em 1943, é um convite a "sulear" o pensamento, como propôs Paulo Freire.

Embora reconheçam a importância simbólica e política do mapa, Lima e Carolina citam como desvantagens a possível dificuldade de compreensão imediata por parte do público, habituado à convenção tradicional, e o fato de que mapas são ferramentas de poder que podem gerar resistência de lideranças que não veem com bons olhos essa crítica à história colonial. Contudo, destacam que todo mapa reflete interesses e que o novo mapa do IBGE se insere em um momento histórico em que o Brasil busca se posicionar como protagonista no cenário mundial.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): IBGE
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