Quando se fala em Venezuela, a primeira imagem que costuma surgir é a de filas por comida, hiperinflação, repressão política e êxodo em massa. Mas, por trás desse cenário de tragédia humana, existe uma disputa mais ampla, que passa pelo petróleo venezuelano e por uma espécie de “guerra fria” entre interesses americanos e projetos socialistas, como China, Irã e Rússia. O problema central é que, enquanto potências e ideologias brigam, o povo venezuelano segue abandonado – inclusive pela própria ditadura de Nicolás Maduro, que diz governar em seu nome.
A maldição de sentar sobre petróleo
A Venezuela tem uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Em tese, isso deveria ser sinônimo de soberania e prosperidade. Na prática, virou aquilo que muitos economistas chamam de “maldição dos recursos naturais”: um país que depende quase exclusivamente de um único produto, vulnerável a choques externos e capturado por elites políticas e econômicas que controlam essa riqueza.
Durante o auge dos preços do petróleo, primeiro com Hugo Chávez, o governo venezuelano usou a renda do óleo para financiar programas sociais, subsidiar combustível e alimentos e exercer influência política na região. Ao mesmo tempo, desmontou instituições, cooptou o Judiciário, perseguiu opositores e aparelhou a estatal PDVSA. Em vez de diversificar a economia e fortalecer a democracia, preferiu concentrar poder.
Quando o preço do petróleo caiu e a incompetência de gestão somou-se à corrupção, a fachada ruiu. Faltou tudo. E quem pagou o preço não foram os generais, nem os altos funcionários do regime, mas o cidadão comum, empurrado para a fome ou para a fronteira.
Americanos x socialistas: uma disputa que fala em povo, mas age por interesse
De um lado, os Estados Unidos, historicamente interessados em garantir acesso a fontes de energia baratas e estáveis no seu “quintal” latino-americano. Washington já apoiou golpes, ditaduras e intervenções na região sempre que julgou seus interesses estratégicos ameaçados. No caso venezuelano, o governo americano adotou sanções, pressionou por isolamento diplomático e apoiou lideranças oposicionistas, sob o discurso de “restaurar a democracia”.
Do outro lado, setores da esquerda internacional e governos aliados ao chavismo venderam a imagem de uma Venezuela cercada pelo imperialismo, uma espécie de bastião da resistência socialista no continente. Essa narrativa, muitas vezes, romantiza o regime, relativiza violações de direitos humanos e usa o antiamericanismo como escudo para não encarar a realidade autoritária e desastrosa de Maduro.
Em ambos os polos, o povo venezuelano vira objeto de discurso e não sujeito de decisão. Os Estados Unidos usam sua tragédia como argumento geopolítico contra o socialismo. Os defensores do chavismo usam o sofrimento como prova da suposta guerra econômica imperialista, ignorando erros, abusos e crimes do próprio governo. Enquanto isso, quem foge a pé do país não está pensando em ideologia; está só tentando sobreviver.
A ditadura de Maduro e o abandono do próprio povo
Chamar o governo Maduro de ditadura não é exagero retórico, é descrição. Há perseguição a opositores, prisões políticas, censura à imprensa, controle do Judiciário, eleições manipuladas e uso da força para reprimir protestos. Um governo que vive de reprimir, calar e fraudar não governa para o povo, mas contra ele.
O abandono do povo venezuelano se manifesta em vários níveis:
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No plano econômico, com políticas que destruíram a produção interna, alimentaram a inflação e tornaram o salário um papel sem valor.
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No plano social, com o colapso da saúde, da educação, dos serviços básicos e a normalização da miséria.
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No plano político, com a negação sistemática de canais reais de participação e alternância de poder.
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No plano moral, com a transformação da máquina pública em ferramenta de chantagem: comida, emprego e benefícios em troca de lealdade.
O regime se apresenta como “governo dos pobres”, mas é justamente quem impede que esses pobres tenham futuro. Defende-se com o discurso anti-imperialista, mas negocia petróleo em condições opacas, fecha acordos convenientes e trata o recurso nacional como patrimônio de uma cúpula, não da população.
O cinismo dos de fora e a responsabilidade dos de dentro
É inegável que sanções econômicas mal desenhadas podem piorar a situação da população, e que os Estados Unidos frequentemente usam mecanismos de pressão mais por interesse próprio do que por altruísmo democrático. Mas reduzir a crise venezuelana a “culpa do imperialismo” é desonesto. A devastação começou muito antes das sanções mais duras e é resultado direto de escolhas políticas internas, autoritárias e irresponsáveis.
Há também cinismo entre governos e partidos ditos socialistas que, de longe, defendem Maduro em nome de um “projeto revolucionário”, enquanto jamais aceitariam viver sob condições semelhantes em seus próprios países. Usam a Venezuela como bandeira ideológica, não como causa concreta de libertação de um povo.
Mas seria igualmente simplista demonizar apenas o “socialismo” como se a história latino-americana não estivesse repleta de ditaduras, apoiadas ou toleradas por Washington, que também exploraram recursos naturais sem repartir renda e sem respeitar direitos humanos. O ponto não é apenas a etiqueta ideológica do regime, mas o autoritarismo, a corrupção e a captura do Estado por grupos de interesse.
No fim, quem paga a conta?
No conflito entre americanos e socialistas pelo petróleo venezuelano, o que menos importa, na prática, é a vontade do venezuelano comum. Ele não é chamado a decidir qual modelo econômico quer, que alianças externas prefere, como deve ser gerida a maior riqueza do seu país. Ele é empurrado, calado ou expulso.
A verdadeira saída para a Venezuela não virá de Washington nem de discursos inflamados de esquerda em outros países, mas de uma reconstrução interna baseada em democracia real, instituições independentes e uma gestão transparente do petróleo como patrimônio de todos, não de um caudilho ou de uma potência estrangeira.
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