No ano de 2025, o Brasil registrou um marco preocupante no cenário empresarial: o número de empresas em recuperação judicial (RJ) cresceu 24%, alcançando um recorde histórico de 5,6 mil companhias ao final do período. Esse processo, previsto na Lei de Falências e Recuperação de Empresas, permite que negócios em crise financeira grave renegociem dívidas com credores sob a mediação do Poder Judiciário, evitando a falência e buscando a sustentabilidade operacional.
O setor que mais impulsionou essa escalada foi o agronegócio, com um aumento expressivo de 67% nos pedidos de RJ. Tradicionalmente resiliente, o ramo agropecuário enfrenta agora ventos contrários intensos, pressionado por uma conjuntura econômica adversa. Especialistas apontam como principal vilão a persistência de taxas de juros elevadas por tempo prolongado. Empresas que dependem de crédito para financiar operações, estoques e investimentos acabam sufocadas pelos custos financeiros exorbitantes. "Pagar juros altos por tanto tempo erode a margem de lucro e compromete a liquidez", explica um analista do setor, destacando como esse cenário afeta desde produtores rurais médios até grandes agroindústrias.
A alta generalizada reflete um efeito cascata em toda a economia. Setores como comércio, indústria e serviços também registraram aumentos, embora o agronegócio tenha sido o epicentro. Dados do Serasa Experian e da Associação Brasileira das Empresas de Recuperação de Ativos Financeiros (Abrafin) corroboram o fenômeno: em 2024, os números já apontavam tendência de alta, mas 2025 consolidou o pico. Fatores agravantes incluem a inflação persistente, oscilações climáticas impactando safras e a redução no consumo interno, que juntos minam a capacidade de honrar compromissos.
Para o empresariado, a RJ surge como tábua de salvação, mas não sem custos. O processo exige transparência total, apresentação de plano de viabilidade e aprovação dos credores, podendo durar anos. Casos emblemáticos, como gigantes do agro em estados como Mato Grosso e Paraná, ilustram o drama: produtores endividados com bancos e fornecedores recorrem à Justiça para alongar prazos e reduzir encargos.
Autoridades econômicas monitoram o quadro de perto. O Banco Central, ao sinalizar possíveis cortes na Selic em 2026, espera aliviar a pressão. No entanto, especialistas alertam que, sem reformas estruturais — como maior acesso a crédito subsidiado e incentivos fiscais —, o recorde de 2025 pode se repetir. O desafio agora é transformar crises em oportunidades de reestruturação, preservando empregos e a cadeia produtiva nacional.
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