Há exatos 50 anos, em 18 de julho de 1975, o Paraná foi palco de um dos eventos climáticos mais impactantes de sua história agrícola: uma geada devastadora que dizimou cerca de 60% dos cafezais, que então cobriam 1,8 milhão de hectares. Essa catástrofe natural marcou o fim de um ciclo econômico para o estado, que na década de 1960 havia se consolidado como o maior produtor de café do Brasil, superando São Paulo com 21,3 milhões de sacas, representando 64% do volume nacional.
Eugênio Stefanelo, à época diretor do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) e futuro secretário, relembra a apreensão que antecedeu a geada. Na noite de 17 de julho, o governador Jaime Canet Junior e o secretário da Agricultura Paulo Carneiro já previam a intensidade do frio. Stefanelo, ao ser questionado pelo governador, lamentou: "Acredito que pela marcha da temperatura os cafezais terão um grande baque." O prognóstico se confirmou dolorosamente na manhã seguinte.
Apesar da imediata queda na produção, que em 1975 registrou 10,2 milhões de sacas (quase 50% da produção nacional), e da perda da liderança, o Paraná manteve uma participação relevante na cafeicultura até o final da década de 1980. Contudo, a tragédia impulsionou uma profunda reestruturação da agropecuária paranaense. A partir dali, houve um fortalecimento do cultivo de soja e outros grãos, o crescimento da horticultura como ativo comercial, e uma notável modernização das cadeias de proteínas animais, com destaque para a avicultura e suinocultura.
A diversificação se tornou a palavra de ordem. Hoje, 50 anos depois, o Paraná ainda mantém sua produção de café, com foco especial em cafés especiais, especialmente no Norte Pioneiro, que possui uma Indicação Geográfica (IG) para o produto. Carlópolis, por exemplo, concentra um quarto da produção estadual. Outra IG foi conquistada pelo Café de Mandaguari.
O agrônomo Carlos Hugo Godinho, analista do Deral, destaca a safra atual de café, com florações uniformes e boa produtividade, apesar da queda recente nos preços. A exportação paranaense de café verde e, principalmente, de café solúvel, continua robusta, totalizando US$ 433 milhões em 2024. No entanto, a dependência do mercado de commodities e as incertezas tarifárias americanas levam os produtores a buscar alternativas, como a produção de cafés de alta qualidade, que já representam entre 10% e 30% do volume estadual. Iniciativas como o Concurso Café Qualidade Paraná, o projeto "Mulheres do Café" do IDR-Paraná e o turismo rural são exemplos dessa busca por diferenciação e agregação de valor, um caminho essencial para a cafeicultura paranaense em um cenário onde a produção em larga escala dificilmente voltará a ser a regra.
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