Em um gesto que expõe divisões no Mercosul, o Brasil, sob presidência pro tempore do bloco, recusou-se a assinar um comunicado conjunto liderado pela Argentina sobre a crise venezuelana. O documento, divulgado à margem da cúpula realizada ontem (20) em Foz do Iguaçu (PR), foi endossado por presidentes como Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai) e José Raúl Mulino (Panamá), além de autoridades da Bolívia, Equador e Peru. Lula e o uruguaio Yamandú Orsi ficaram de fora.
O texto expressa "profunda preocupação" com a crise migratória, humanitária e social na Venezuela – suspensa do Mercosul desde 2017 por ruptura democrática, conforme o Protocolo de Ushuaia. Os signatários reafirmam o compromisso com a restauração pacífica da democracia, o respeito aos direitos humanos e a libertação de presos políticos, ratificando mecanismos de defesa democrática no bloco, fundado em 1991.
O Planalto justificou a ausência alegando risco de o comunicado ser interpretado pelos EUA como respaldo a uma ação militar contra o regime de Nicolás Maduro, no poder desde 2013 e não reconhecido por Donald Trump. Washington intensificou operações no Caribe, bombardeando embarcações e apreendendo petroleiros venezuelanos sob pretexto de combater narcotráfico – narrativa contestada por Maduro, que vê nisso cobiça pelo petróleo, coração da economia caribenha.
Lula adota cautela: não reconheceu a vitória de Maduro nas eleições de julho de 2024 e conversou por telefone com ele e Trump em busca de solução diplomática. Na cúpula, alertou que uma intervenção geraria "catástrofe humanitária" e precedente perigoso, evocando a Guerra das Malvinas. "O continente sul-americano volta a ser assombrado pela presença militar extrarregional", discursou.
Milei, por outro lado, chamou Maduro de "narcoterrorista" e elogiou a pressão americana: "O tempo da timidez passou". A tensão destaca fraturas no Mercosul diante da escalada EUA-Venezuela.

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